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11/09/2016OSB - um patrimônio nacional ameaçadoLeia a carta publicada em O Globo no dia 11 de setembro de 2016 
A cidade do Rio de Janeiro e o Brasil correm o risco de perder uma das instituições culturais mais tradicionais do continente: a Orquestra Sinfônica Brasileira. 

A OSB, que neste mês completou 76 anos, já realizou mais de 5 mil apresentações no país e no exterior. Fundada em 1940, quando o Rio de Janeiro era a capital da República, esse patrimônio nacional e carioca, ao longo de sua história, vem atuando para levar música a todo o Brasil por meio de turnês, além de promover a música brasileira. Do concerto de inauguração de Brasília às recentes comemorações dos 450 anos do Rio de Janeiro, a OSB está constantemente presente nos momentos históricos do país.

Nenhuma outra instituição musical nacional lançou e consagrou tantos artistas brasileiros, como Nelson Freire, Antônio Meneses e Arnaldo Cohen, ou recebeu tantos ícones da música, como os maestros Leonard Bernstein, Igor Stravinsky, Zubin Mehta, Lorin Maazel, Kurt Masur, e solistas, como Martha Argerich, Claudio Arrau, Mstislav Rostropovich, Jean-Pierre Rampal, Arthur Rubinstein, Plácido Domingo e José Carreras, entre tantos outros. Isso sem contar o legado musical que a instituição vem deixando para o país, tendo sido a orquestra de compositores e de maestros brasileiros como Heitor Villa-Lobos, Eleazar de Carvalho, Claudio Santoro, Francisco Mignone, Camargo Guarnieri e mais uma infinidade de grandes nomes.

A OSB é do Brasil, mas é também do Rio de Janeiro, tendo sido, ao longo de todos esses anos, o palco principal para músicos, maestros e compositores da cidade. Só no ano passado, mais de 40 compositores cariocas tiveram suas obras apresentadas em sua programação. O conjunto também celebrou os 450 anos do Rio com uma série exclusiva na Cidade das Artes, inaugurou o Museu do Amanhã e este ano trouxe para o público uma temporada artística celebrando o espírito olímpico com a presença de jovens artistas do Brasil e do mundo.

A cada ano, a OSB realiza, em média, 70 apresentações e tem também uma longa tradição de contribuição à sociedade na área educacional e cultural. Por ano, um público de até 20 mil pessoas usufrui de seus Concertos da Juventude, que são gratuitos para as crianças do Orquestra em Sala, um projeto que prepara professores e fornece material didático para ser trabalhado nas escolas antes da apresentação. A OSB fornece também transporte e alimentação, levando em média 700 estudantes a cada um desses concertos. Este ano, a OSB inaugurou uma parceria inédita na América Latina, com o Carnegie Hall, intitulada Orquestra em Movimento, que está ensinando 2 mil crianças a tocar flauta, compor e ler música para que, ao final deste ano, possam se apresentar junto com a orquestra. Esse programa – que teve início em 1985 – já alcançou a marca global de 300 mil crianças beneficiadas anualmente. Essas duas ações da Fundação OSB caminham em paralelo ao cumprimento da Lei 11.769, que torna o ensino da música um conteúdo obrigatório dos currículos da educação básica (ensinos infantil, fundamental e médio) em todo o Brasil.

A OSB, em parceria com a agência Artplan, também desenvolveu o primeiro aplicativo educacional brasileiro de música de concerto para tablets chamado Clássicos Animados. Uma ferramenta gratuita que vem potencializar o aprendizado de música de forma interativa, dinâmica e lúdica. Seu coro de crianças, com mais de 70 músicos mirins, se apresenta regularmente no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

O acesso à programação da OSB também se multiplica através da TV, do rádio e das mídias sociais. Os Concertos da Juventude foram transmitidos pela Rede GLOBO e, mais recentemente, pelo Canal MultiRio. Pela Rádio MEC, todo domingo a Fundação apresenta o Rádio OSB. Trechos das apresentações também são transmitidos ao vivo nas mídias sociais da orquestra, já tendo atingindo até meio milhão de visualizações de um mesmo concerto. A Fundação já conta com mais de 186 mil seguidores no Facebook. Em parceria com o Jornal O GLOBO, a OSB participa há 44 anos do projeto Aquarius, que desde 1972 leva o melhor da música para públicos de até 500 mil pessoas em apresentações gratuitas em locaiscomo a Quinta da Boa Vista, o Complexo do Alemão e a praia de Copacabana.

Com a recente crise econômica brasileira, o total arrecadado pela Fundação OSB junto a empresas privadas caiu para menos da metade. Só neste ano houve uma redução de captação de R$ 16 milhões entre mantenedores, patrocinador e apoiadores.

A Prefeitura do Rio vinha contribuindo regularmente com um valor médio de R$ 6 milhões/ano. Entretanto, o valor total aportado nos últimos quatros anos soma R$ 9 milhões, substancialmente menor do que o planejado e deixando um déficit em nossos orçamentos.

As grandes orquestras brasileiras e de todo o mundo dependem inteiramente desses investimentos privados e governamentais para sobreviver. No caso da OSB, o recurso de R$ 2,5 milhões conveniado em 2016 pela Prefeitura do Rio – que tem apoiado a OSB desde 1994 – equivale a menos de 5% do valor aportado pelo governo de São Paulo na OSESP e aproximadamente 14% do que o governo de Minas Gerais coloca na Filarmônica de Minas Gerais. Em 2012, a OSB chegou a arrecadar um total de R$ 43 milhões, fundamentalmente através da Lei Rouanet, mas este ano, até o momento, o valor não chega a R$ 15,5 milhões. A Fundação tem reduzido suas despesas, ao longo dos últimos quatro anos, em mais de 35%, passando de R$ 40 milhões para R$ 26 milhões por meio de ajustes em sua programação e redução de seus quadros de músicos e administrativo. Todos os seus funcionários, músicos e administrativos, são celetistas e têm como benefício do plano de saúde. Dessa forma, os custos fixos da Fundação ultrapassam R$ 22 milhões, o que torna inviável, para ela ou qualquer orquestra profissional do mundo, viver exclusivamente dos recursos obtidos através de bilheterias ou da venda de assinaturas. A OSB é grata à Prefeitura do Rio de Janeiro, mas precisa que esta renove seu apoio à orquestra de forma permanente, como têm feito seus fiéis investidores BNDES, Carvalho Hosken, Bradesco e Brookfield, e todos os demais apoiadores que permitiram à Fundação atravessar o ano até o momento. No entanto, para sobreviver a este ano fiscal, a orquestra ainda necessita arrecadar R$ 15 milhões, seja de contribuições públicas, de empresas privadas, ou pessoas físicas que entendem e reconhecem o real valor de uma orquestra como a OSB.

Infelizmente, como não existe, até o momento, perspectiva de concretização de novos aportes, a Fundação se vê obrigada a suspender o restante de sua temporada de concertos e todos os seus projetos sócioeducacionais previstos para este ano.

A ausência de investimento dos setores público e privado na salvaguarda desse patrimônio brasileiro poderá causar o desaparecimento de um dos maiores ícones da cultura nacional e carioca. Um conjunto único que,há mais de sete décadas, representa a diversidade cultural brasileira e atua ativamente na educação desta sociedade.