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  • João Carlos Cochlar

A aproximação pelo contraste

A China foi celebrada no último concerto da Série “Mundo” da Orquestra Sinfônica Brasileira. No concerto do dia 28 de setembro, pudemos celebrar não apenas a amizade de dois países e suas respectivas obras musicais. A aproximação sino-brasileira vai além das cooperações econômicas ou do suporte sanitário na pandemia da covid-19. Celebrou-se o êxito no plano da cultura.


Foto: Andrea Nestrea

Concerto da Orquestra Sinfônica Brasileira com Xuan Du como solista
Concerto da Orquestra Sinfônica Brasileira com o violinista Xuan Du como solista

Na noite do dia 28 de setembro, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a Bachiana n. 8 de Villa Lobos foi executada após a composição “Os amantes borboleta”, de Gang Chen e He Zhanhau. Esta última foi a transformação de fascinante lenda tradicional chinesa em música, e solo virtuoso do violinista Xuan Du. A abertura do concerto foi com a obra “Suíte festiva”, de Ronaldo Miranda. Sua presença recebeu os merecidos aplausos pelo vigor de sua composição.


Somada à obra de Miranda, a execução da “Bachiana n. 8” era a exaltação do orgulho de ter Villa Lobos como o rosto sinfônico brasileiro. A “Bachiana n. 8” se aproximava dos anseios experimentais do compositor, mais do que um reflexo dos sons do folclore e da música popular.


Mas, nessa oportunidade, propõe-se o enfoque na obra do país homenageado. Pode-se dizer que “Os amantes borboleta” é uma peça não apenas com inequívocas características sonoras da China. Mas evidencia também o contraste na forma como se produz e se lida com a arte. E o que isso quer dizer?


Assim como a pintura é composta de cores, a música é composta de notas. O conjunto ordenado dessas notas – tal como a paleta de cores na pintura – chama-se escala. Cada escala pode ter duas até doze notas. Elas recebem nomes, e a partir delas se pode construir uma obra.


A essência da música tradicional chinesa é a escala pentatônica (a mais conhecida é a formada pelas cinco teclas pretas do piano). Ela é a paleta de cores da obra “Os amantes borboletas”.


A escala pentatônica é particularmente interessante, porque ela está no subconsciente humano, como demonstrou em um congresso de neurociência o cantor Bobby McFerrin. Em um exercício, ele ensinava a plateia a cantar associada a uma posição em que ele estivesse no palco. Com um pulo ao lado, ensinou a plateia a cantar junto com ele uma segunda nota. E sem mais nada instruir à plateia, McFerrin fez diversos pulos de um lado a outro do palco, e a plateia cantou, intuitivamente e em uníssono, a escala pentatônica inteira, incrédula com o fenômeno que estava produzindo. O experimento pode ser assistido na internet. [1]


Mas apesar dessa possível universalidade, essa escala tornou-se a marca da música oriental. É valiosa a lição do musicólogo brasileiro José Miguel Wisnik:


Se tocamos uma melodia qualquer, percorrendo os degraus da pentatônica em movimentos ascendentes, descendentes e levemente salteados, reconheceremos um nítido sotaque oriental, porque os padrões sonoros costumam ficar impregnados do seu uso (no caso, identificados com a música tradicional chinesa[...]).[2]

Mas a verdade é que a obra, apesar de orbitar em torno da escala pentatônica, introduz elementos tipicamente associados ao Ocidente, como as sensações de preparação e repouso[3]. As três obras do programa foram compostas no século XX. Já não havia mais cultura que estivesse isolada dos intercâmbios. Características ocidentais e orientais se entrelaçavam.


Foto: Andrea Nestrea

Violinista chinês Xuan Du


A riqueza da arte chinesa não reside apenas em sua tradição e profundidade. Mas também no pensamento frente à arte. Em Shanzhai, o filósofo Byung-Chul Han estuda a visão chinesa de arte. “Uma obra-prima chinesa nunca permanece idêntica. Quanto mais ela é reverenciada, mais sua aparência se altera.”[4]


Essa obra já foi executada de diversas formas, desde formações menores até em conjuntos sinfônicos de instrumentos típicos chineses. Daí que sua execução na forma sinfônica revela a vocação da Série “Mundo”. Aproximar sociedades, temáticas e interesses. Afirma-se a alteridade como valor da Orquestra. Presta-se a reverência ao mesmo tempo em que se afirma a capacidade da OSB de executar qualquer obra de qualquer procedência cultural. A mais discrepante que seja.


[1] A experiência está disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=fjvR9UMQCrg [2] WISNIK, José Miguel. O som e o sentido. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 1989, p. 74. [3] O final do quarto movimento da Bachiana n. 07, de Villa Lobos, é um exemplo eloquente disso. [4] HAN, Byung-Chul. Shanzhai: desconstrução em chinês. Petrópolis: Ed. Vozes, 2023, p. 24.

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