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  • João Carlos Cochlar

O legado das compositoras e a responsabilidade das intérpretes

Por João Carlos Cochlar

Fotografias: Renato Mangolin

Os concertos dos últimos dias 15 e 16 de abril foram uma quebra na rotina da OSB. Ao invés da orquestra completa, um trio. No lugar dos compositores tradicionais, apenas mulheres. Clara Schumann, com seu Romance op. 22 para violino e piano, Henriette Bosmans, com sua sonata para violoncelo e piano, e Fanny Mendelssohn, com um trio. Todas interpretadas também por mulheres: a pianista Lígia Moreno, a violinista Eliane Tokeshi e a violoncelista Emília Valova.


Ouvir essas peças soou como novidade, apesar de compostas há mais de século. Há escassa presença no repertório. São fruto do esforço de resgate histórico. Não apenas no repertório, mas até mesmo no próprio nome. O repertório tradicional prestigia Robert Schumann, esposo de Clara, e Felix Mendelssohn, irmão de Fanny, autor da famosa Marcha Nupcial. Dessa, Henriette Bosmans escapou. Não se casara com um compositor eminente. Assegurou a independência de seu nome.


Mas não se tratava apenas de “novidade”. As execuções precisas de Lígia Moreno, Eliane Tokeshi e Emília Valova revelaram a imensa riqueza sonora ocultada dos ouvintes nesse percurso histórico. A nova revelação dessas compositoras é o percurso da superação da inaceitável desigualdade de prestígio em relação aos homens.


É também imenso desafio e responsabilidade para as intérpretes. Diferentemente das inúmeras gravações e execuções antológicas das peças de Robert e Felix, há menor referência acerca de Clara, Fanny e Henriette Bosmans. Cada execução pública da obra dessas compositoras oferece uma referência de como cada composição soa. Dá ao ouvinte uma das inúmeras possibilidades de interpretar a obra. Como enfrentar esse desafio? Como ser deferente às compositoras, mas sem rigor intransigente com a intérprete?


Sobre esse tema, a pianista Lígia Moreno conversou com o Blog OSB. E apesar da performance que arrancou aplausos da plateia em diversos momentos, revelou surpresas. As três interpretes se conheceram naquela semana. A preparação individual começou havia apenas um mês. E a obra das compositoras deste concerto era inédita no repertório da pianista.


Como construir uma interpretação? Basta a partitura? Para Lígia Moreno, não. É preciso conhecer o contexto histórico e os desafios do momento social. Se a obra chegou a ser ou não reconhecida. Se a compositora tinha boa saúde. Bom relacionamento. O contexto é requisito para enfrentar o texto musical.


Ouvir ou ler antes? A pianista esclareceu que é necessário um prévio amadurecimento antes de escutar outras versões. Um contato não influenciado com o texto musical para se evitar o que chamou de uma “colcha de retalhos”. Uma execução sem coesão.


Ainda segundo Lígia, foi uma experiência muito rica tocar com mulheres. Há maior sensação de liberdade e descontração. A interação foi tão positiva que, apesar do pouco tempo de preparo, Lígia e Emília Valova tocaram mais um movimento da obra de Bosmans, tal foi a fluidez com que a interpretaram. A iniciativa da OSB de colocar mulheres no programa de concerto estimulou Lígia Moreno a buscar incluí-las no seu repertório.


Vivemos, enfim, tempos em que se luta por corrigir desigualdades. Uma das formas é prestigiar o repertório de compositoras por tanto tempo preterido. Ouvir essas obras é ter ciência de que são mulheres pioneiras do seu tempo. Compuseram obras que, ao mesmo tempo em que se encaixam nas características estilísticas da sua época, soam autênticas. Daí a sensação de novidade. Sobretudo com o primor na execução trazido por mulheres intérpretes.


Daí vem a responsabilidade. As intérpretes serão responsáveis por trazer ao inconsciente coletivo uma visão da obra das compositoras. A sua visão. E a tomar pelo exemplo do último concerto, serão responsáveis por revelar um legado de imensa riqueza.

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