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  • João Carlos Cochlar

A música e o tempo

Por João Carlos Cochlar

Fotografias: Andrea Nestrea

Nos dias 7 e 8 de abril, a OSB apresentou o Concerto para piano nº 17 de Mozart e a Sinfonia nº. 4 de Schumann na Sala Cecília Meireles. Durou pouco mais de uma hora. O veterano Jean Louis Steuerman, ex-diretor da Sala, protagonizou a noite como solista e regente de uma OSB repleta de músicos jovens e experientes.


As obras foram compostas quando os compositores tinham 28 e 31 anos, respectivamente. Schumann, em verdade, relançou a obra totalmente revisada aos 41 anos. Surgiram pela passagem do século XVIII para o XIX e se rematerializaram no século XXI. O passado se fez presente.


Mas, depois daquela uma hora de concerto, a música voltaria a inexistir. Não há mais som. Não é como uma pintura ou livro, cujo conteúdo permanece no papel ou na tela. Ao contrário, sem o som, a música se dissipa.


Há, portanto, uma relação distinta do indivíduo com o tempo e o seu entorno. Seja em relação ao compositor, aos intérpretes e ao ouvinte.


Qual é o tempo para concluir uma composição? Mozart terminou quatro concertos para piano entre janeiro e abril de 1784, além de outras obras. Schumann levou dez anos até considerar sua Sinfonia n. 4 pronta. Há um tempo certo? Como disse Steuerman ao Blog OSB, “a música é um trabalho infinito. Pode ser sempre melhor.” Nossa sociedade da pressa e do prazo permite? Afinal, sua obra é o que faz do compositor atemporal, intertemporal, extratemporal...


E o que faz o compositor permanecer no tempo? Daniel Barenboim, pianista e regente argentino, diz que toda grande obra tem duas faces: uma voltada para a própria época e outra para eternidade.[1] E isso é válido tanto na música, como no teatro, na literatura e no cinema. A riqueza das grandes obras que permanecem tem a ver com a constante redescoberta. Pode ser nas grandes obras de Mozart, na literatura desde Saint-Exupery a Machado, na pintura de Van Gogh. Cada geração é exposta ao acaso das novas descobertas dos clássicos. E assim os criadores permanecem no tempo.


Qual é o tempo da música? Há o tempo das notas grafadas e o da experiência vivida. Steuerman destaca que a OSB é composta por muitos jovens que tocam bem. Agrega músicos de vinte a oitenta anos, todos preparados técnica e emocionalmente. Estimula uma “competição saudável”: os mais jovens pelo entusiasmo e os mais velhos pelo exemplo. Steuerman destaca que é possível sentir a busca de todos por saber mais. Um constante aprimorar-se.


O intérprete enfrenta ainda o rigor do tempo. É a pulsação, o andamento. O repertório da música de concerto não é dado a espontaneidades súbitas. Dizia Stravinski que “o pecado contra o espírito da obra sempre começa com um pecado contra sua literalidade”[2]. E cada nota aferida precisa ter um encaixe sob medida no todo produzido pela Orquestra.


Daí o imenso e exitoso desafio de Jean Louis Steuerman ao conciliar as exigências mecânicas do piano com os desafios da regência. Tampo aberto. Desfez a fronteira entre solista e o conjunto. Considera que produziu um som mais íntimo e integrado.


E, enfim, qual é o tempo de ouvir? O ouvinte é o destinatário final do trabalho do compositor e do intérprete. Nos dias de hoje, as coisas ligadas ao tempo envelhecem muito mais rápido.[3] São tempos em que tudo se acelera. Somos expostos a um volume sem fim de informações. Priva-nos da pausa e da contemplação. Sujeita-nos a ceder à ansiedade.


O tempo de ouvir é o tempo da pausa das ocupações. O concerto é uma pausa. Um fechar de olhos, diria o filósofo Byung-Chul Han. Separa o ouvinte da rotina. É momento de pausar as notícias, as telas de celular e as conversas fugidias, que contaminam a experiência de ouvir. Estas são fontes de exaustão, porque, como qualquer feed de notícias, não acabam. A música de concerto, ao contrário, contrasta com o frenético do cotidiano. Permite que a fadiga do cotidiano se conclua para dar espaço ao repouso contemplativo e à experiência do tempo do compositor, do intérprete e do ouvinte ao mesmo tempo.


Permite-nos, enfim, dar tempo ao nosso tempo.


[1] Daniel Barenboim; Edward W. Said. Paralelos e paradoxos: reflexões sobre música e sociedade. Ed. Companhia das Letras, 2003, p. 65 [2] Igor Stravinski. Poética musical. Ed. Zahar, 1996, p. 113 [3] Byung-Chul Han. Favor fechar os olhos. Ed. Vozes, 2021, p. 27


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