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  • João Carlos Cochlar

Expressar o inexprimível

Por João Carlos Cochlar

Fotografias: Andrea Nestrea


No último domingo (12), a Orquestra Sinfônica Brasileira retomou a série “Mundo”, dedicada aos países, seus povos e culturas.


O concerto inaugural foi dedicado ao Azerbaijão. Pela quarta vez, o país eurásio é protagonista. Todas sob regência do premiado maestro Yalchin Adigezalov.


Mas, nessa oportunidade, a OSB foi além. Não apenas homenageou o Azerbaijão, como também celebrou algo que temos em comum: o raro privilégio de ter compositores cujas obras foram inspiradas em histórias locais, regionais, transmitidas pelo vocabulário das notas musicais.


Celebrou a música como forma de contar histórias e apresentar uma comunidade.


Antes do concerto, a vice-presidente da OSB Ana Flávia Cabral Souza Leite recebeu no palco o embaixador Rashad Novruz. O diplomata exaltou a cooperação de sucesso com a Orquestra. Dedicou a homenagem ao centenário de nascimento do ex-presidente Heydar Aliyev, a quem atribui o desenvolvimento cultural recente e a guarda das tradições do Azerbaijão, além dos treze anos de relações diplomáticas com o Brasil.


O programa iniciou com a obra “Layla e Majnun”, do compositor azeri Kara Karayev. É inspirada em poema regional homônimo do século XII, do conterrâneo Nizami. Após, o Concerto para piano em lá menor, de Edvard Grieg, que, como registraram as notas de programa, “evidenciam o gosto do músico pelo folclore do seu país”. O concerto teve como solista o premiado pianista brasileiro Cristian Budu. Por fim, a consagrada Sinfonia nº. 2 de Rachmaninoff.


A obra de Karayev é dotada de lirismo, melodia cantável, ao mesmo tempo em que é acompanhada de pulsação firme em diversas passagens. Oscilava entre momentos de drama e descontração que remetiam a um humor quase jovial. Significariam contrastes de um amor idealizado não correspondido? Ou apenas contrastes sonoros, pura e simplesmente?


Seja a interpretação que for, tocou no âmago da sensibilidade do público, cuja reação, ao final, foi uma só: os aplausos.




Após, o maestro Adigezalov retorna acompanhado do pianista brasileiro Cristian Budu para execução do concerto de Grieg. A peça consegue convergir temperança com enorme robustez sonora. Exigiu muito não só da Orquestra, mas também do solista, que entregou sua interpretação da obra com destreza que encantou os presentes. Nem mesmo o ranger de cadeiras, alarmes ou choros de criança puderam distrair os ouvintes.


O envolvimento da orquestra, do solista e do regente era tal, que, na iminência do último acorde da peça, tudo que se pôde ouvir foi o ofegar do maestro antes do baixar final da batuta. Entregou-se por inteiro ao ofício. E os aplausos só vieram após do impacto catártico gerado no público. Foram tantos que trouxeram de volta ao palco Cristian Budu para um bis extraordinário e bem brasileiro. Executou “Jaboatão”, choro da compositora Tia Amélia, cuja obra vem sendo resgatada por Budu e diversos outros músicos, como Hercules Gomes.


Sobre a experiência, o pianista falou em cortesia ao Blog OSB: “A OSB tem uma história uma tradição que você sente no momento que se prepara para tocar. E que no fundo é um patrimônio nosso.”


Encerrou-se a Sinfonia nº. 2 de Rachmaninoff. Uma obra que explora ao máximo as possibilidades da orquestra. Conduz o ouvinte em viagem sonora de inúmeras possibilidades, entre o melancólico, o dramático e o triunfal. Momento áureo foi no terceiro movimento, com pulsação mais lenta. Tal era a intimidade do maestro Adigezalov com este adagio que o regente depositou a batuta na sua estante. Regeu apenas com as mãos. Como se pudesse encostar nos sons produzidos pela orquestra.


Ao homenagear o Azerbaijão executando a obra de Karayev, a OSB superou a oferta da contemplação estética. Contou uma história. Revelou, pela música, não só o sentimento despertado pela poesia de Nizami no compositor, mas também as sonoridades regionais do seu país. A OSB transmitiu, diretamente ao ouvinte, pela música, o ethos do Azerbaijão.


É claro que não podemos reproduzir a história de Nizami a partir da escuta da composição de Karayev. Já dizia que o filósofo Vladimir Jankelevitch que “adivinhar a música a partir do texto é uma encruzilhada de inúmeras possibilidades”. “Os estados de alma e os sentimentos são tão numerosos como as próprias músicas às quais pode dar origem”. Mas é impressionante que, ao conhecer a história de origem, o som se encaixa com narrativa. Além de revelar os sons que constituem a cultura azerbaijana.


A música tem o poder de revelar as experiências humanas mais significativas, porém menos exprimíveis. Pode dizer o que constitui uma comunidade não no plano racional, mas no experiencial. Exemplo maior é a série “OSB do Brasil”, uma versão nacional da série “Mundo”. É composta por concertos que revelam os muitos mundos do Brasil. As cantigas de roda, as lendas indígenas, cordéis e tantas outras riquezas como fonte de inspiração para a composição orquestral. Deixamos de apenas saber das regiões do Brasil. Passamos a senti-las e imergir nelas. É possível transformar em palavras?


O concerto inaugural da Série Mundo expressou o inexprimível do que é o Azerbaijão. A “OSB do Brasil” fez, e fará novamente, com que os muitos brasis se conhecessem. Quase como o oráculo de Delfos sonoro: um “Conhece-te a ti mesmo”.


Aldous Huxley disse que, depois do silêncio, aquilo que mais se aproxima de exprimir o inexprimível é a música. Por ela, além da contemplação estética, ganhamos a capacidade de conhecermos outros saberes e culturas.


Inclusive a nós mesmos.


A Temporada Terra da OSB prossegue sob a regência de Yalchin Adigezalov, com concerto composto por obras de Edino Krieger, Rachmaninoff e Beethoven nos dias 18 e 19 de março, na Sala Cecília Meireles.





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