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  • João Carlos Cochlar

Mulheres sem fronteiras

Por João Carlos Cochlar

Fotografias: Andrea Nestrea


A Orquestra Sinfônica Brasileira reencontrou-se com o público em duas apresentações que marcaram a inauguração de sua nova temporada de 2023: Terra. Ou “Naãne”, em homenagem ao povo originário ticuna, habitante da região da divisa do Brasil com Colômbia e Peru.


O concerto de abertura foi uma homenagem às “Mulheres na Música”. Neste março, mês da mulher, não foram apenas homenageadas, mas protagonistas.


Na abertura, a vice-presidente da OSB, Ana Flávia Cabral Souza Leite, anunciou a retomada do OSB Jovem: uma orquestra-escola que transforma nossos talentos em efetiva vocação através do ensino. Vetor de transformação social e igualdade. Após, subiram ao palco a spalla do concerto Gabriela Queiroz e a maestra Mariana Menezes. Executaram peça da compositora brasileira Clarice Assad.




E o nome da composição da brasileira não poderia ser diferente. “Sem Fronteiras” é obra que percorre diferentes sonoridades características de diversos lugares no mundo. Explora ao máximo as possibilidades da orquestra. Prova disso foi que a composição exigia a própria voz dos músicos como instrumento. Surpresa para quem assistiu.


Em seguida, foi a vez dos russos. Para o Concerto para piano nº. 3, de Rachmaninoff, cujo nascimento completa 150 anos em abril, a orquestra recebeu a pianista brasileira Lígia Moreno, que revelou proficiência e vigor primorosos na sua execução. A regente, a solista, a spalla e a orquestra entraram em plena simbiose. A performance foi de conter a respiração. Executaram a peça russa com genuíno vigor brasileiro.


Aplaudidas de pé.


Assim como o foram na execução de Sheherazade, de Rimsky-Korsakov, cujas melodias passaram pelo inconsciente de todos alguma vez. A primeira lembrança que tenho de ouvir ao vivo essa peça foi em execução da Orquestra Sinfônica Estatal de São Petersburgo “Clássica”, em 2019. E apesar de ser meu primeiro registro pessoal, a sensação era a de que já nos conhecíamos...



Após o concerto inaugural, em depoimento ao Blog OSB, a maestra Mariana Menezes conta que é sua terceira vez à frente da Orquestra. Em todas, contou com mulheres solistas. “A OSB é uma orquestra que entrega muito e tem uma visão de instituição. Pensa na comunidade e traz isso de forma digna, elegante, bem-feita. Tem um propósito, esse é o diferencial. Não é só música”, considerou.


A participação feminina está na gênese da OSB desde 1940, quando já contava com mulheres titulares. Já em 1943, dezessete compunham a Orquestra. Além de, nas décadas seguintes, revelar solistas notáveis, como Cristina Ortiz e Linda Bustani.


É uma quebra de paradigma em ambiente onde a equidade ainda é busca constante. Orquestras tradicionais, como as Filarmônicas de Berlim e Viena, contrataram suas primeiras titulares em 1982 e 1997, respectivamente. Em 2007, Berlim tinha dezessete integrantes mulheres. O mesmo que a OSB em 1943.


Sem falar no ambiente de tóxico sexismo. Um notável regente já disse que mulheres não deveriam compor orquestras. “Tornam-se homens”. Até mesmo Schoenberg, pioneiro do serialismo, rechaçava os acordes diminutos acusando-os de “efeminados”. Sendo essa estrutura usada pelo próprio Rachmaninoff na obra deste concerto inaugural, como confirma a maestra Mariana Menezes.


Mas o tempo e o progresso se encarregam, cada vez mais, de apagar as injustas barreiras. O vigor e virtuosismo de Clarice Assad, Mariana Menezes, Lígia Moreno e Gabriela Queiroz bem representa isso. Somam-se ao exemplo de brilhantes mulheres na música mundo afora.


É o caso de Mirga Tyla, a jovem diretora musical da Orquestra de Birmingham, e Jeri Lynne Johnson, titular da Black Pearl Orchestra, que veio ao Brasil reger a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo em primorosas execuções de Grass e Dvořák em 2022. Também Marin Alsop, a primeira regente titular da OSESP. Ou Maria Schneider, regente de jazz vencedora do Grammy de melhor composição clássica contemporânea por obra para orquestra de câmera em homenagem à poesia de nosso Carlos Drummond de Andrade. Temos ainda, na ficção, Lydia Tár, a polêmica e brilhante maestra que protagonizou o filme “Tár”, com seis indicações ao Oscar (e a torcida deste que vos escreve).


A abertura da temporada de 2023 revelou a vocação da OSB: a de ser uma orquestra inclusiva em busca de agregar, cada vez mais, o diálogo entre os diferentes. E o concerto “Mulheres na Música” revelou tendência irreversível: a de que as mulheres ocuparão, cada vez mais, seus merecidos espaços.


Vale mencionar a moral da história de Sheherazade, homenageada de Rimsky-Korsakov, que, por mil e uma noites, criou, interpretou e narrou contos para seu esposo, o rei Shariar, a fim de escapar da morte. A criatividade e o propósito são os percursos para conquista da liberdade e do triunfo.


No dia 12 de março, a OSB prossegue na temporada Terra com a Série Mundo, em homenagem ao Azerbaijão, com obras de Karayev, Grieg e Rachmaninoff.


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