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  • João Carlos Cochlar

Renascer

O que faz da Orquestra Sinfônica Brasileira patrimônio cultural imaterial não é apenas a tradição e a excelência de seus concertos. Mas também sua ambição em ser instituição de impacto social a favor do Brasil. Seja pela sua música ou por meio de seus projetos educacionais.


Foto: Andrea Nestrea

Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem com maestro Anderson Alves

É nesse espírito que a OSB celebra seus oitenta e três anos de continuidade. Orgulhosa de desfrutar algo tão raro em instituições culturais: a conquista da permanência. Resultado de lutas diárias empreendidas pela comunidade que a sustenta. Desde sua estrutura administrativa até cada um de seus músicos que, rotineiramente, supera seus limites desvendando um novo repertório.


Nesses oitenta e três anos, um presente. Em 2023, pudemos celebrar o retorno de um dos projetos de maior orgulho da Orquestra: a OSB Jovem. Resgatado após onze anos de interrupção graças ao apoio decisivo de setores da sociedade civil.


Criado em 1999, o projeto oferece a jovens músicos a oportunidade de aprender com os titulares da Orquestra, recebendo bolsa e auxílios para assegurar dedicação não só ao aperfeiçoamento musical, mas também à formação dos valores. Ação que reflete a confiança inabalável da OSB na juventude brasileira e no seu futuro.


Investir no futuro dos nossos talentos é, na verdade, aposta segura de bons resultados. A vocação do Brasil e seus muitos brasis para a música é imensa.


O concerto de reestreia da OSB Jovem, ocorrido em 17 de agosto de 2023 na Sala Cecília Meireles, é a primeira aparição pública dessa orquestra jovem que já renasce consagrada. Não pela marca, mas pela capacidade e obstinação de seus jovens. Executaram um programa estritamente brasileiro, com Villa Lobos, Guerra Peixe, Lorenzo Fernandez, Camargo Guarnieri e Anderson Alves, este último o maestro que conduziu, com muito carinho, a OSB Jovem e estreou com ela uma composição sua: “Abertura Festiva – O recomeço”.


Todos estes compositores revelam o quanto somos múltiplos em nós mesmos. Somos sofisticados, ecléticos e, sobretudo, capazes de sermos eruditos na nossa cultura popular. Somos um desafio de ritmos e melodias para os intérpretes que se aventuram a executar nossa música.


A OSB Jovem mostra que temos um talento que é nosso. Talento que, como diria Nelson Rodrigues, é reflexo de quando somos o máximo possível de nós mesmos. Exemplo disso são nossos compositores, hoje clássicos, mas que já foram chamados de “modernistas” ontem. O jovem que tem a oportunidade de se aprofundar no seu ofício musical com corações e mentes no Brasil vislumbra pioneirismo. Exemplo clássico disso é o próprio Villa Lobos, tal como registra a pianista e musicóloga Gilda Oswaldo Cruz:


"o amálgama sui generis obtido por Villa-Lobos entre o elemento erudito europeu e o popular e/ou folclórico brasileiro, se consumou praticamente desde o início de sua produção. E por isso mesmo pôde ele declarar orgulhosamente ao chegar em Paris em 1923: ‘Não vim aprender. Vim mostrar o que fiz.’[1]"


A OSB Jovem é oportunidade de aprender no Brasil e mostrar o que pode fazer. Sobretudo com sua vocação de acolher músicos atingidos por todas as dimensões das desigualdades que afligem o Brasil. Sejam estas de ordem social, econômica, educacional, racial e de gênero. É como disse a vice-presidente executiva da OSB, Ana Flávia Cabral Souza Leite: a OSB Jovem é ponte entre ter o talento e ocupar o lugar.


Essa ponte se constrói através do encontro entre os sonhos da Orquestra e dos que conquistaram um espaço na OSB Jovem. É um projeto para criar pertencimento, mas não para mera sobrevivência. Para viver sonhos. Apesar do extraordinário começo de carreira, mesmo os que hoje estão na OSB Jovem e não sigam carreira musical terão a visão de mundo transformada pela experiência. Os valores se aperfeiçoam. Há reflexo sobre como sua atitude impacta o todo. Como ouvir o outro e a si próprio. Ter a referência dos músicos titulares sobre os caminhos de como progredir. E tudo isso se espelha também na vida pessoal.


Foto: Andrea Nestrea

Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem na Sala Cecília Meireles

A OSB Jovem voltou para transformar vidas e cumprir com a responsabilidade social da Orquestra em avançar a educação musical e a inclusão Brasil afora.


É verdade que iniciativas isoladas não vencem sozinhas os desafios da desigualdade no Brasil. Mas além de reduzi-las, geram um efeito virtuoso. São exemplo diante da sociedade civil para construir união em prol de uma utopia: vencer a desigualdade. Objetivos como esse não devem ser encarados como destino inalcançável, mas um caminho permanente. É como disse o escritor Eduardo Galeano citando o cineasta Fernando Birri:


"A utopia está lá no horizonte. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar."


[1] CRUZ, Gilda Oswaldo. Heitor Villa-Lobos e a Semana de Arte Moderna. Uma reinterpretação questionada. Revista Insight Inteligência, edição 96, março de 2022.


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